Após
15 anos de estagnação, a construção
civil vem se constituindo no principal carro-chefe do
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)
e, na sua esteira, outros setores já vivem o reflexo
positivo. Depois da reação em 2006, quando
o PIB da construção chegou a bater 5,8%,
o setor manteve a linha ascendente em 2007, com expectativa
de fechar o ano com crescimento da ordem de 8%. Para 2008,
a estimativa é crescer 12%.
O
bom momento da Construção Civil é
mérito do Governo, movido, justiça seja
feita, por uma bem orquestrada ação do setor
produtivo, unido sob a bandeira da União Nacional
da Construção, uma iniciativa da Fiesp e
da CBIC. Graças a medidas acertadas, como desoneração
de impostos sobre itens da cesta de materiais para a construção,
implantação de marcos regulatórios
em saneamento, desburocratização nas linhas
de financiamento da casa própria, o setor colhe
agora os frutos sazonados desse esforço.
São
números auspiciosos, se considerado o longo jejum,
que empolgam e dão esperança ao empresário.
Mas é também por conta desse longo período
de inércia, que hoje estamos pagando o alto preço
do despreparo. O boom do mercado imobiliário, que
cresceu 38% nos últimos três meses, segundo
pesquisa da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), está revelando as carências de um
setor, por anos abandonado e para o qual não houve
qualquer planejamento.
Nos
primeiros elos da cadeia, essas carências estão
mais sensíveis. Os escritórios de arquitetura
e engenharia não dão conta da demanda de
projetos, cuja entrega chega a demorar quatro meses, e
a indústria de materiais já se ressente
também da falta de insumos importantes, como cimento,
pedra e pedriscos, além da falta de equipamentos
nos canteiros de obras, como gruas, bate-estacas, escoramentos
e outros.
O ajuste a esse novo cenário demandará esforços,
sem dúvida. Para alguns segmentos da indústria
da construção, que vinham apresentando capacidade
ociosa, a adaptação se dará com mais
rapidez, com a adição de turnos extras nas
jornadas e mesmo com a ampliação da escala
de produção. Para outros, entretanto, como
a indústria cimenteira ou siderúrgica, de
máquinas e equipamentos, essa tarefa não
será tão simples, já que exigem investimentos
mais pesados, com maturação de um a dois
anos.
Lançado
o fermento, a massa terá de crescer. Assim também
o mercado da construção, vitaminado pelos
projetos do PAC, tende a expandir-se exponencialmente,
já que somos um país continental e com alto
passivo na área habitacional, da ordem de 7,2 milhões
de moradias. Mas, como acontece na vida, quem viveu muito
tempo na escassez, comete excessos à mesa quando
conhece a fartura. E nesse sentido é preciso alertar
para o risco que isso significa para o próprio
setor. A crise na oferta do cimento, que sumiu das revendas
em alguns estados, ou que teve os preços elevados
de forma artificial, da ordem de 20 %, mostra um pouco
disso.
Reconhecemos
que a lei da oferta e da procura estará sempre
ditando a regra do mercado, e que para muitos produtos
há margem de ajustes nos preços. Mas a especulação,
com a formação de estoques desnecessários,
pode significar um tiro no próprio pé, com
prejuízos para todo mundo, principalmente para
a grande massa de brasileiros que buscam realizar o sonho
da casa própria e que são os grandes fomentadores
do mercado da autoconstrução.
Portanto,
um pouco de temperança e equilíbrio, virtudes
há muito ensinadas pela milenar sabedoria oriental,
não fará mal ao empresariado da construção
civil. Se, em vez de especulação, avidez
e afoitamento, for empregado o bom senso, toda a cadeia
ganhará e, com ela, o País, já que
a construção civil é e sempre foi
o motor maior da economia.
(*)
José Carlos de Oliveira Lima, é vice-presidente
da Fiesp, Coordenador do Departamento da Indústria
da Construção - DECONCIC/FIESP e presidente
do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos
de Cimento (Sinaprocim).